Violência natural
Meditações sobre o caso Leona-Vaqueirinho
Gerson escalou mais de seis metros, usando uma árvore como escada, para se encontrar com Leona, a leoa. Ali estava um homem habitando um corpo que protagonizou a morte no meio do passeio.
O limite do corpo no limite da jaula.
O sangue na jaula, fora do corpo.
O vídeo, o corpo com sangue,
o ataque, o trauma hemorrágico.
A morte.
Sentimos, de forma incompetente e acachapante, o peso do imenso bloco da certeza solar de quem decide morrer no encontro com um animal selvagem. Aqueles olhos de mel da leoa acompanhando o trajeto do humano que se aproximou demais, o cheiro da carne de homem nas narinas leoninas, espectadores agarrados ao medo coletivo do fim doloroso, culminando no movimento do dedo ao trajeto automático da filmagem do evento.
Eis a morte sem censura.
Há em nós o desejo inoportuno em descobrir aquela história que findou encravada nos caninos da leoa, a carne macia, o calor escapando. Vasos cervicais, os grandes tubos que carregam o sangue vermelho-oxigênio ao cérebro, foram perfurados com precisão. O corpo da leoa cativa sabe, ainda sabe, como manejar rapidamente a vida em direção ao fenecimento.
O pescoço do homem pendurado na boca do grande felino, tirando as coisas e as palavras do lugar, perturbando nossa ideia de controle de tudo. A ordem pingando na terra seca, escorrendo pela comissura labial do animal, grudada aos pelos antes amarelados e agora vermelhos.
Os olhos arregalados de medo,
os dele e os nossos.
Um homem que, na própria realidade, parece ter decidido morrer com a fera a morrer com os seus.
Ficamos com a incredulidade do evento e as perguntas incessantes que nos desamparam. A certeza de Gerson nos envergonha, intriga e consome. A vida da carne de Gerson e suas últimas decisões nos apavoram.
Gerson foi muitas vezes abandonado até ser abocanhado pela fera que aprisionamos.




O texto mais sensível que li sobre essa tragédia que começou antes do Gerson entrar na jaula da leoa.
Nossa, que texto bonito e ao mesmo tempo impactante sobre esta tragédia tão tristemente humana em sua faceta mais animalesca